Crônica

Segunda-feira, depois do almoço, desvio do caminho normal para o meu trabalho e vou na Weyne Cavalcante procurar o único comércio que mexe com impressoras no centro da cidade, pelo caminho descubro com imensa felicidade que foi “erradicado” um ponto antes  com “odor”, “barulhento” e “de aparência desagradável” demais para estar em pleno centro de Canaã dos Carajás, um local que foi substituído por um comércio bem diferente do que estava no local,  iniciativa de uns jovens que felizmente ainda não desistiram da cidade e decidiram aumentar seu negócio. Desde já meus parabéns a esses jovens.

Sigo um pouco mais e começa aí minha decepção, esse negócio de impressoras que eu procurava virou uma farmácia, nada contra as farmácias mas sinto algo estranho. Sinto que tem tanta gente esperando que eu adoeça e tão pouca gente esperando para reparar minha impressora.

Volto para trás, bebo uma água de coco sentado em uma mesa que ocupa metade da calçada, olho para a frente e penso, como seria bom no centro de Canaã no meio da praça, ter um estabelecimento, onde pudesse sentar em uma mesa ao ar livre aproveitando uma bebida na sombra de uma arvore, sem barulho de música e sem incomodar a passagem de ninguém.

Com este pensamento sigo meu caminho, desço um transversal da avenida, passo em frente da prefeitura em direção à rodoviária e começa meu desespero, minha raiva, uma sensação de impotência.

Lojas e lojas e pontos comerciais e mais pontos comerciais fechados, vejo com tristeza a rua mal limpa e decorada com placas de “Aluga-se”, “Vende-Se”. Começo nesse momento a ter consciência de que a cidade está diminuindo, está se atrasando, se acabando, se consumindo.

Aí eu paro e um pensamento, uma pergunta fica me incomodando até agora.Quando o povo vai despertar e deixar de olhar só para o próprio umbigo?

Os sindicatos que se dizem “amigos” e “defensores” dos trabalhadores, á uns dias atrás convenceram com mentiras e falácias a população e conseguiram juntar vários trabalhadores para fazer uma manifestação contra a reforma trabalhista, (trabalhadores que sem ler a lei correram para a rua sem nenhuma noção do porquê que estavam se manifestando).

Quando esses sindicatos em tantos anos juntaram a população para se manifestar e fazer pressão para que o governo do município criasse as condições para que empresas se estabelecessem em Canaã?

Quando esses sindicatos chamaram o povo para que juntos se tentasse encontrar soluções empresariais e industriais para o município?

Hipocrisia dos sindicatos que não servem só para negociar salários, sindicatos que vivem à custa dos impostos e que se dizem “amigos” e “defensores” dos trabalhadores, tem o dever de ajudar a criar soluções pois sabiam que mais cedo ou mais tarde a cidade ia enfrentar esta situação. Quantas vezes em este mesmo Portal Canaã se falou que a cidade ia ter problemas depois da abertura do S11D?

Hipocrisia dos governos do município e do estado ganhando eleições e reeleições e fazendo concursos públicos para conseguir votos e não criar soluções para a fixação de empresas e indústria na cidade.

Hipocrisia do povo “imbecializado”, elegendo e reelegendo governos que não fazem nada, povo que só deseja concursos públicos, que só quer trabalhar no município, povo que nunca se juntou, nunca se manifestou, nunca ajudou a criar soluções para que as coisas, hoje, fossem diferentes.

O que está passando em Canaã dos Carajás já era esperado, a culpa é só da prefeitura? Não, a culpa é também de cada um de nós.

Só quando nós mesmos assumirmos nossas responsabilidades em vez de esperar que o prefeito resolva tudo. Quando deixarmos de acreditar em “salvadores”. Quando deixarmos de querer andar no “colo” do estado e do governo desfrutando de “bolsas” e “minha casa minha vida” e trabalhos na prefeitura. Quando olharmos á nossa volta e descobrirmos que algo tem de mudar. Quando deixarmos de ser egoístas e sentir que temos de participar mais e contribuir mais com a cidade.  Quando começarmos a controlar mais o que a prefeitura faz, como é gasto o dinheiro público. Quando com nosso voto e nosso veto mostrarmos aos políticos que temos o poder de eleger e de destituir os responsáveis pela gestão pública, só aí e só aí nesse momento as coisas podem começar a melhorar.

Por: António Manuel da S. C. Neves