Barcarena: Mais um exemplo negativo do modelo de desenvolvimento perverso na Amazônia

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on telegram

Coluna do Branco

Venho acompanhando de longe, os acontecimentos que estão ocorrendo no município de Barcarena, localizado a 300 quilômetros da capital Belém, onde no último dia 06, no Porto de Vila do Conde, no referido município, o navio Haidar, de bandeira libanesa, foi a pique com mais de 4900 cabeças de gado a bordo.

Até o momento as causas dessa tragédia ainda são desconhecidas, sendo permeadas por muitas especulações. O embarque do boi vivo tornou-se uma importante modalidade econômica do Pará, tendo significativo peso na balança comercial paraense. Antes, o embarque ocorria exclusivamente pelo Porto de Belém, mas por diversas ações dos poderes públicos, foi transferida para Vila do Conde, tecnicamente justificado pelo calado (profundidade), o maior entre os portos que a CDP (Companhia Docas do Pará) administra em solo paraense.

O município de Barcarena até a década de 1980, se resumia economicamente na agricultura e pesca. No referido período iniciaram os processos industriais com a chegada da Albras (Empresa inicialmente de capital japonês e que verticalizava a cadeia mineral, transformando alumina em alumínio) e depois com a chegada da Alunorte, fechando a cadeia de produção da bauxita (industrialmente, em etapa anterior ao alumínio). Em seguida outras empresas foram se instalando no município, como a Cadam e a Imerys, responsáveis na produção industrial do caulim.

Seguindo o rito “desenvolvimentista”, Barcarena, assim como outros exemplos, sofreu grandes intervenções urbanísticas para abrigar esses projetos. Foi erguido pela Albras/Alunorte, Vila dos Cabanos, uma cidade planejada, para abrigar os empregados das referidas empresas, especialmente as grandes da cadeia da bauxita. Hoje, a cidade não passa de um esbouço do que foi planejado, sendo hoje um espaço sem controle por parte das empresas, apresentando acelerado processo de sucateamento.

Barcarena coleciona diversas tragédias ambientais e que por inercia, tornaram-se sociais também. As empresas citadas, sem exceção, já se envolveram em problemas ambientais, especialmente, no que se refere a vazamentos de materiais, especialmente o caulim para os cursos d’águas da região, quase todos contaminados com resíduos.

As antigas cadeias produtivas do município, especialmente a pesca, meio de sobrevivência das populações ribeirinhas, foram quase exterminadas por esses problemas ambientais. Nos últimos anos o modelo de desenvolvimento pensando e implementado em Barcarena se esgotou. Espraiou pobreza, cristalizadas em bairros sem infraestrutura alguma, criando bolsões de miséria pela cidade. Os empregos ficaram escassos, os problemas ambientais e sociais aumentaram consideravelmente.

Entre todos os problemas ambientais, nada se compara com o ocorrido com o navio Haidar, no Porto de Vila do Conde. Os impactos da tragédia não são sabidos e a magnitude do sinistro ainda são imensuráveis e deverão durar por meses. As diversas autoridades envolvidas no caso parecem não se entender, vão a pique (assim como o navio) por conta das vaidades institucionais que parecem travar o processo. Gabinete de gerenciamento de crise instalado pela CDP em Vila do Conde, sob a coordenação da Marinha do Brasil e da Defesa Civil do Estado do Pará, do qual fazem parte a SEMAS, a Secretaria de Meio Ambiente do município de Barcarena, o IBAMA, a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, o Ministério da Agricultura, a Adepará e a Anvisa, além de órgãos observadores, mas parecem em conjunto criar pouco retorno prático para tal situação.

Enquanto os diversos órgãos buscam se entender e trilhar um caminho de ação prática para atenuar os problemas, a população de Barcarena continua pagando uma conta muito cara, emitida pelo modelo de desenvolvimento, sempre com grande ônus socioambiental, e com questionáveis retornos positivos nas regiões de implantação desses projetos. De exemplo em exemplo, assim continua caminhando a Amazônia.

 12006182_1468572010139284_2965935745697830044_nProf. Henrique BRANCO – Licenciado em geografia com pós-graduação a nível de especialização em Geografia da Amazônia – Sociedade e gestão de recursos naturais. Professor que atua nas redes de ensino público e particular de Parauapebas. Assina diariamente o “Blog do Branco”www.henriquembranco.blogspot.com além de jornal e sites da referida cidade.

As opiniões expressadas em Colunas e Artigos não refletem necessariamente a opinião do Portal Canaã. Todo conteúdo é de inteira responsabilidade de seus autores.

 

 

Deixe uma resposta

Leia mais