Rio Parauapebas, até quando?

A mineradora Vale tornou público que no dia 26 de maio do ano corrente recebeu da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará (SEMAS), outorga (2813/2017), ou seja, autorização para captar água superficial do rio Parauapebas. Seguindo à lógica da vazão do referido recurso hídrico, foi estipulado dois volumes de captação diária: 48.000m³ no período chuvoso (dezembro a maio) e 552m³ no período de estiagem (junho a novembro). A justificativa do pedido é para o uso humano e industrial.

A questão de captação e uso de água pela Vale sempre foi um tema bem polêmico e por sua obscuridade sempre levantou diversas interpretações e suposições. Em 2012, por exemplo, em documento oficial, a mineradora explicita seus esforços para diminuir o uso de água em suas operações, investindo em tecnologia. Segundo o relatório de sustentabilidade ocorreram avanços em relação ao uso eficiente da água nas operações. Em sua totalidade, o índice médio de recirculação em 2012 foi de 77%, um aumento de sete pontos percentuais em relação a 2011. Com isso, se de​ixou de captar 1,227 bilhão de metros cúbicos de água de fontes naturais, o que equivale a cerca de duas vezes o consumo anual da cidade do Rio de Janeiro. Parte desse resultado é reflexo dos investimentos em tecnologias voltadas para o desenvolvimento de programas e ações focadas na redução da demanda e do consumo de água. Só em 2012, foram investidos US$ 125,9 milhões na gestão de recursos hídricos na Vale.

Na Mina do Sossego, localizada em Canaã dos Carajás, a recirculação de água na usina de beneficiamento do cobre chega a 99%, segundo a Vale. Com o resultado, houve uma redução anual no volume total de água captada de 900 mil metros cúbicos – que anteriormente era bombeada do Rio Parauapebas -, quantidade suficiente para abastecer uma cidade de 25 mil habitantes por seis meses. Já no Complexo Minerador de Carajás, em Parauapebas, sudeste paraense, houve uma redução de 24% na captação devido às mudanças no processo de peneiramento do minério de ferro, que passou a ser feito a partir de sua umidade natural, eliminando a necessidade de água nova.

Os resultados obtidos refletem o alinhamento com os diversos esforços de cooperação pela água, contribuindo, assim, para garantir os múltiplos usos do insumo, atuais e futuros. A empresa participa ativamente de ações de engajamento para o desenvolvimento de políticas públicas, a partir de discussões globais e locais sobre a água.

A nota e as ações descritas impressionam no sentido da responsabilidade ambiental. Mas parecem se configurar apenas como uma retórica institucional, dos já batidos documentos de planos de ações em relação ao tema. Quase um salvo conduto para novas ações, uma comunicação em caráter justificatório.

De fato, a autorização concedida pela Sema a mineradora Vale soa como algo preocupante. Ainda mais se tratando de um rio que já vive em estado crítico em sua vazão nos meses de estiagem. Com a liberação de uso (neste caso retirada) de água do rio, aumentará a pressão sob o referido recurso, colocando-o em situação preocupante em relação à sua disponibilidade de água. A cada ano o rio Parauapebas só aumenta a sua incerteza futura. Até quando?

Por.

Prof. Henrique Branco – Licenciado em geografia com pós-graduação a nível de especialização em Geografia da Amazônia – Sociedade e gestão de recursos naturais. Professor que atua nas redes de ensino público e particular de Parauapebas.

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