A influência da cultura indígena no Pará e na região sul e sudeste do estado

Há muito tempo a cultura indígena está inserida em nosso dia-a-dia, através da influência de seus hábitos, tradições, descobertas e criações, passados de geração em geração até a atualidade.  Segundo a Fundação Nacional do Índio – FUNAI, que é o órgão indigenista oficial do Brasil, juntamente com o instituto brasileiro de geografia e estatística – IBGE, há cerca de 900 mil índios no Brasil, segmentados em 305 etnias, que falam até 274 línguas distintas. Estes dados tornam o Brasil um dos maiores países em diversidade sociocultural do planeta. Então, se a cultura indígena está fortemente difundida na nossa sociedade e se essa cultura é comumente mal compreendida, por que não conhecer um pouco mais sobre ela?

Segundo a FUNAI, desde a descoberta do Brasil, em 1500, até a década de 1970, a população indígena brasileira reduziu significativamente e muitos povos foram extintos. Esta extinção teve origem no processo de conquista e colonização do País, em que muitos índios tiveram suas terras tomadas, sua cultura reprimida e seu meio ambiente devastado. Os que sobreviveram, resistiram e resistem até hoje.

Algumas de nossas práticas diárias foram herdadas dos índios, como o hábito de tomar banho todos os dias, andar descalço em certos momentos e lugares, deitar em redes, assim como algumas danças, ritmos, musicas, o consumo de alimentos à base de milho, mandioca, peixe, frutas, entre outros costumes que acabaram sendo incorporados em nossa sociedade. Os índios também deram origem a diversas palavras do nosso vocabulário, como: Jabuticaba, Caju, Pipoca Mandioca, entre outras. A utilização de plantas medicinais também é uma rica herança deixada por estes povos. Neste contexto, podemos afirmar que os índios tiveram uma grande parcela no nosso desenvolvimento cultural.

Fonte: luizberto.com

Segundo o censo do IBGE de 2010, ao fazer uma análise da distribuição espacial dos indígenas no País, se constatou que a Amazônia, em especial a região Norte, abriga a maior parcela de povos indígenas, com 37,4% de pessoas que se declararam como tal. No Pará há registros de tribos indígenas antes mesmo da chegada dos primeiros desbravadores que povoaram a região. Os índios, por sua vez, tiveram que enfrentar o massacre e a escravidão impostos pelos colonizadores, que tinham como objetivo a exploração de especiarias de alto valor no mercado europeu da época. Com isso, iniciou-se a exploração de um povo e de sua biodiversidade local. Contudo, apesar da tentativa de extermínio dos povos indígenas, estes sobreviveram, mostrando que é possível lutar por uma cultura exuberante.

A maior parte da cultura do Pará advém da influência indígena, na qual está intrinsecamente firmada nos costumes e tradições da nossa sociedade, como exemplos, temos:

  • A influência na culinária

O tucupi, que é um caldo bastante apreciado na cozinha paraense. É um líquido de cor amarela, extraído da mandioca. Frequentemente utilizado como ingrediente de vários pratos da culinária local, como o tacacá, que é uma espécie de sopa incrementada, tendo em seu preparo também o camarão e o jambu (um tipo de folha que provoca uma leve dormência na boca), temperado com ervas e pimenta de cheiro. Para alguns, trata-se de uma comida, para outros, de bebida.

  • A influência na Língua

Observa-se claramente no linguajar do paraense palavras que tiveram origem no dialeto indígena, como o nome do nosso estado – Pará, que na língua tupi significa Rio, Igarapé – do Tupi-Guarani: caminho d’água, Açaí, do tupi – ¨ yasaí ¨= ¨fruta que chora¨. Essas línguas representam suas próprias manifestações culturais e literárias, refletindo na diversidade social existente na região.

  • A influência na música e da Dança

As músicas e danças produzidas pelos indígenas estão presentes no universo paraense. Os sons e ritmos dos instrumentos de Tambor, Maracá, flauta e outros foram incorporados nas danças e canções de nosso estado, como no carimbó, na lambada, no tecnobrega, entre outros ritmos e danças.

No sul e sudeste do estado do Pará, a população indígena representa uma diversidade de tribos, espalhadas em varias extensões da região. Um exemplo de um grupo indígena presente neste setor do estado é o povo “Gavião”, de origem Timbira, que é uma grande nação de povos caracterizados por Nimuendaju em quinze grupos dispersos pelo Maranhão, Tocantins e Pará, cuja língua é a Jê-Timbira, Azanha (FERRAZ, 1998). Alguns habitam na Terra Indígena Mãe Maria, em uma área de 62.488 hectares, localizada no município de Bom Jesus do Tocantins – Pará. É limitada a oeste pelo rio Flecheiras e a leste pelo Rio Jacundá (JUNIOR, 2014).

Nesta região do estado, é possível observar a rica e fascinante arte indígena das tribos locais. Com destaque para as pinturas, que são sempre uma forma de expressar rituais, representação de seres da natureza, geralmente animais e outros. Uma arte gráfica, impressa nas cores e traços marcados, que muitas vezes contam uma história ou representam valores culturais de cada tribo. Essa tradição fomenta o conhecimento e a valorização da história dos povos indígenas, juntamente com a preservação da fauna e flora.

Um exemplo de pinturas corporais está presente na tribo Parkatêjê, pertencente aos povos denominados Gaviões do Oeste, de origem Timbira, que pertencem ao tronco linguístico macrô-jê, com território compreendido entre o vale do médio rio Tocantins (sudeste do Pará) e o alto curso do rio Grajaú, na Serra da Desordem (Carolina – MA) (Ricardo, 1985). Suas pinturas possuem sentidos zoomórficos, representados por animais: peixe, arraia, lontra, arara e gavião, e outras. Quando as crianças desta tribo nascem, recebem uma pintura, cujo significado marca sua identidade social para o resto da vida. Neste sentido a aldeia Parkatêjê, possui diversos grupos pertencentes aos gaviões, ou as araras, ou aos peixes, ou as lontras, ou as arraias (MENEZES, 2016).

A questão territorial, neste setor do estado, sempre foi um grande problema para os índios, desde o período colonial, com a exploração da castanha, borracha e outros. Atualmente, houve um aumento de projetos de “desenvolvimento” implantados em territórios indígenas, que acabaram atingindo e continuam a atingir, diretamente, seus territórios e suas condições de vida. Neste cenário, pode-se perceber que tais empreendimentos que impactaram diretamente os territórios desses povos, têm pressionado a população indígena do sul e sudeste paraense. Essa ação gera consequências gravíssimas não só a eles, como também à camponeses e outros moradores desta região. É notável a insatisfação dos indígenas diante desse processo marcadamente violento, levando-os a lutarem pela garantia do direito sobre seu território.

Sabemos que os indígenas foram os primeiros habitantes originais do Pará. Foram eles que ajudaram a moldar a sociedade em que vivemos hoje, pois através dos conhecimentos passados por eles, podemos compreender o universo amazônico no qual estamos inseridos. Eles constituem um rico e diversificado patrimônio étnico e cultural que não existe em nenhum outro lugar no mundo. Portanto, é essencial que possamos reconhecer e valorizar a influência deles no nosso dia-a-dia, assim como respeitar os povos indígenas existentes e, principalmente, resistentes.

 

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