Bolsonaro: um “mito” insustentável

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Confesso que nunca tive interesse em abordar qualquer referência a Jair Bolsonaro, deputado federal pelo PSC (Partido Socialista Cristão). Primeiro porque não via necessidade analítica. O referido – em minha visão – não passava de uma caricatura política, algo ideologicamente posicionado na extrema Direita, com viés militarista e que não teria projeção dentro do cenário político nacional, ainda ressentido com o período ditatorial vivido pelo Brasil.

Jair que é militar de carreira, está em seu sexto mandato de deputado federal. Antes disso foi vereador na cidade do Rio de Janeiro, seu então único reduto eleitoral. Seu nicho eleitoral sempre se sustentou em eleitores vinculados à segurança pública, com simpatizantes de propostas enérgicas e de valores cristãos. Esse público, assim como o próprio parlamentar sempre estiveram à sombra de qualquer visibilidade nacional. Ideias e propostas que sempre defendiam não ecoavam na maioria dos cidadãos, não havia ressonância pública. Hoje tem. E por quê?

Em ordem cronológica, as manifestações de 2013, a quebra do regime democrático (impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff) e o avanço de ideias e posturas fascistas, esse público “saiu do armário” e começou a ganhar adeptos. A própria Esquerda, cristalizada no PT, que já não conseguia atender aos problemas e demandas do país tem sua cota de responsabilidade. Isso é explicado na prática pelo número crescente de jovens que apoiam ou, pelo menos, simpatizam com as ideias defendidas por Bolsonaro.

Para o jornalista José Roberto de Toledo: “Jair Bolsonaro é o messias para jovens do sexo masculino das regiões mais ricas do Brasil e com escolaridade acima da média. São eles que dão ao militar aposentado cerca de 10% de votos espontâneos – uma taxa que, a um ano da eleição presidencial, faz inveja a todos os outros candidatos. Hoje, grande parte dessa geração nascida após a ditadura e que cresceu num período de bonança não votaria em outro que não Bolsonaro”.

Em termos comparativos, Jair vem em crescente ascensão eleitoral, em 2010, por exemplo, foi o 11ª deputado fluminense mais votado. Em 2014 assumiu a liderança, multiplicando por quatro o seu quantitativo de votos. Mas vamos as suas credenciais, neste caso, vida pública como deputado federal desde 1991. Em 26 anos como congressista conseguiu aprovar, entre 171 apresentados, dois projetos de lei e uma emenda: uma PEC que prevê emissão de “recibos” junto ao voto nas urnas eletrônicas, uma proposta que estende o benefício de isenção do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para bens de informática e outra que autoriza o uso da fosfoetanolamina. Portanto, em duas décadas em meia de legislatura, o resultado é pífio, irrisório. O que não é muito diferente em relação aos outros deputados, já que a “produtividade” do Congresso Nacional sempre foi muito questionada.

Bolsonaro “surfa” na onda direitista e conservadora que avança rapidamente no Brasil, incluindo no senso comum a derrocada da Esquerda. Portanto, ele incorpora o discurso nacionalista, patriota (mesmo que isso seja esquizofrênico, pois defendeu a venda do pré-sal para outros países) e defende privatizações. Portanto, diferente do que o nacionalismo defende e prega.

Outro ponto é com relação à sua densidade eleitoral. Jair vem ampliando o seu nicho eleitoral, mas ainda é insuficiente para qualquer possibilidade de vitória em uma eleição presidencial. Não agrada, por exemplo, os grandes grupos empresariais. Não tem densidade eleitoral nas regiões Norte e Nordeste. Os maiores financiadores de campanha e a Direita clássica prefere um nome que saia do PSDB/DEM a buscar uma “aventura” com Bolsonaro, que não definiu se reforça o aparato estatal ou o torna mínimo, conforme pregoa a base neoliberal. No campo econômico é algo incerto, sem base ou sustentação política. Na verdade, ele apresenta total desconhecimento sobre a área econômica.

No caso dos jovens (segmento que mais cresce em quantitativo de simpatizantes), o avanço da Direita conservadora como Donald Trump e Jair Bolsonaro, ocorrem porque falam o que falam e sabem que muita gente irá aplaudi-los por isso. Embrulham sua narrativa em um falso frescor de novidade que cativa muitos jovens quando, na verdade, ela é a mesma que está no poder desde o descobrimento da América.

Segundo Sakamoto: “A esquerda no Brasil conseguirá se organizar e disputar um novo projeto de país? Um que não tenha vergonha de reconhecer seus erros e atuar em campos que lhe são espinhentos, como a violência urbana? Poderá construir uma nova narrativa que desperte o sonho e o engajamento dos mais novos?

Muitos desses jovens estão descontentes, mas não sabem o que querem. Sabem o que não querem. Neste momento, por mais agressivos que sejam, boa parte deles está em êxtase, alucinada com a rua e com o poder que acreditam ter nas mãos. Mas ao mesmo tempo com medo. Pois cobrados de uma resposta sobre sua insatisfação, no fundo, no fundo, conseguem perceber apenas um grande vazio. Pode-se continuar dando às costas a eles, chamando-os de fascistas, ou abrir o diálogo – muitas vezes difícil, mas necessário”.

Sabem conversar com um público que quer saídas rápidas para a falta de emprego e para a segurança pública e que precisam de alguém que lhes entregue uma narrativa consistente para poderem tocar suas vidas – narrativa que os partidos tradicionais solapam em oferecer. A esquerda, com louváveis exceções, parece não querer fazer isso na área da segurança pública. Jovens estão morrendo na periferia aos milhares e policiais honestos, às dezenas. Portanto, são necessárias soluções de curto prazo, que passem por garantir qualidade de vida dessas populações de ”matáveis”, e não apenas ações estruturais que levam anos.

Eu considero Bolsonaro, em termos pessoais, uma das piores opções imagináveis para ocupar a presidência. Não tem nenhum conhecimento relevante, seus discursos são pura demagogia, com forte apelo a desejos violentos do eleitorado, é leniente com violência contra homossexuais, seu jeito errático não inspira nenhuma confiança.

Seu discurso extremista é algo que não terá avanço, por exemplo, quando iniciar, de fato, a campanha, caso seja realmente candidato. Sua posição ou o projeto que defende não se sustenta em um debate político em rede nacional.  Penso que Bolsonaro busca visibilidade nacional, expressão política para disputar uma das duas vagas ao Senado Federal, em 2018. Por isso essa postura de “presidenciável” que carrega.

Enquanto isso, segue o formato que se propôs a realizar. Conforme diz o economista Joel Pinheiro, em um artigo publicado na revista Exame: “A eleição ainda está distante e há muito tempo para Bolsonaro se esvaziar. Isso só acontecerá, contudo, se as alternativas a ele entenderem e lidarem com os motivos compreensíveis que alimentam seu atual sucesso”. Por enquanto, a referência “mito” a Bolsonaro está mais para a parábola escrita pelo filósofo grego Platão em uma passagem do livro “A República”. Irão sair da sombra e enxergar a realidade?

Por: Henrique Branco

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