Invertem-se os papéis
E aquilo tudo que formava o chão,
O generoso chão, onde eu firmava os pés,
Já não existe mais, foi pelos ares.
E expõe-se agora até à exaustão
Aquilo que é íntimo de nós,
Sem dó, sem compaixão,
Sem pudor ou piedade.
E assim corremos nós,
Bando de solitários,
Massa amorfa engolfada
Neste turbilhão.
No que deve ser público
Há sigilos demais,
Há segredos demais,
E enquanto isso
Há milagreiros demais
E milagres demais
Frente à televisão.
E há fomes demais
E tanto desperdício!
E então
Nós buscamos o aconchego da noite,
A doce e mansa escuridão da noite,
E de repente
Estamos afogados
Em um mar de faróis.
Quem sou eu? Quem somos nós?
Para onde vamos nós?
Ansiamos pela amplidão,
E buscando a amplidão do mar
Encontramos navios demais
Congestionando e poluindo o cais.




