Coluna do Branco

Na última quinta-feira (23) a mineradora Vale tornou público o seu balanço geral de 2016. O resultado foi bem comemorado pelo primeiro escalão da empresa. O cenário contábil e financeiro mudou. De prejuízo em 2015 ao lucro no ano seguinte. A mineradora fechou o ano passado com a liquidez de U$ 3,9 bilhões. Na conversão monetária para o real, pouco mais de 12 bilhões de superávit, nada mal quando se reverte um quadro negativo bilionário em 365 dias.

Os números positivos foram conseguidos – como sempre – através do aumento da produção em suas bases de atuação, especialmente Parauapebas, que, sozinha, foi responsável por quase 2/3 do volume exportado e consequentemente lucrado. Além do volume produzido batendo recordes ano a ano, a cotação do minério de ferro (carro-chefe da mineradora) subiu e se manteve encostado na casa dos 100 dólares, impulsionando a taxa de rentabilidade e lucro da Vale.

Além do ótimo balanço apresentado ao mercado financeiro que – por inércia e levando em consideração o otimismo e confiança que o cenário positivo gera – a outra questão e que parece ser mais importante ao Pará do que necessariamente o lucro da Vale, será a troca de comando na mineradora. Isso porque quem assumir o comando poderá definir novas ações da mineradora em solo paraense.

Conforme abordado em alguns textos, a especulação sobre a saída de Murilo Ferreira da presidência da Vale não é algo novo. Desde quando assumiu em 2011, substituindo Roger Agnelli (falecido) que há conversas nos corredores de Brasília sobre a sua permanência no cargo máximo da companhia. Quando a ex-presidente Dilma Rousseff foi afastada, iniciou forte movimento para a possível saída de Ferreira do comando da mineradora, já que foi a petista que o colocou no posto mais importante da multinacional. A pressão vem de setores mineiros do PMDB, inclusive com forte lobby pessoalmente junto ao presidente Michel Temer.

A pressão política parece surtir o efeito desejado. Ferreira na última sexta-feira (24) anunciou oficialmente a sua saída da presidência da Vale. Diversos nomes são cotados, de dentro da companhia e até de fora. A bancada mineira irá decidir. Os deputados federais e senadores paraenses nem foram consultados sobre a questão, mesmo sendo o solo paraense que mais promove lucro a mineradora.

Neste tiroteio de influências nos bastidores de uma das maiores empresas do mundo, os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais parecem monopolizar – com a concordância de São Paulo – as decisões de maior relevância sobre o futuro da mineradora. Os dois entes federativos (o Rio com a sede da empresa e Minas com a central de operação) tornam-se supremos em relação ao que será decido e feito pela Vale. E o Pará, como fica neste processo? Do solo paraense saem 40% do faturamento da empresa. Aqui temos Carajás, a maior província mineral do mundo e com o minério de ferro (carro-chefe do faturamento e volume exportado) de melhor qualidade do planeta e o megaprojeto S11D, a nova “menina dos olhos” da Vale em solo brasileiro. Mas nada disso importa.

Como sempre, a Vale paraense só recebe ordens e planos de ação. Não decide nada e passa ao longe das decisões mais importantes da mineradora. Muito menos a classe política que parece não optar nada sobre os rumos da empresa. O Pará continua a confirmar o seu papel de colônia dentro do próprio país. A triste sina da Amazônia continua.