Laís,

Sei que bilhetinhos são tão démodés, mas é o que há! Tinha uma vida toda para lhe contar nu, em carne e osso, mas é que me falta coragem mesmo. Por isso apelei para um prosaico bilhetinho. Pode até parecer, piegas, Laís… Mas você que já ouviu tanto sobre os meus amores e desamores, deveria ser a primeira a primeira a ouvir o que eu tenho pra te falar. É muito sério. E envolve nós dois. Vou deixar esse bilhete na sua mochila e você me devolve a resposta nessa folha mesmo e pode colocar na minha mochila também, Laís.

Pablo,

Recebi o seu bilhetinho! Achei uma graça! Assim todo perfumado, todo cheio de corações… Muito lindo mesmo! Mas não entendi bem o que você queria me dizer… Levou várias linhas e não disse bem nada. O que você tem de tão sério para me contar, Pablo? Beijos, amigo!

Laís,

Acabei esquecendo de lhe falar o que eu tinha pra lhe falar. Mas fico tão feliz que tenha gostado do bilhetinho. Morri de medo de você achar brega. Sei que temos iphones, whatsapp, Facebook e outras formas mais rápidas de comunicação, mas é que o bilhete você lê a distância e tudo o que eu quero mesmo é distância, pois você ler algo assim tão sério e tão rápido me causaria estranheza. Você não tem ideia do quão sério isso é…

Pablo,

Você ainda não me disse bem o que é. E está ficando difícil de compreender você. A gente conversa tanto por telefone, por que não falar logo? Sabe que pode me falar qualquer coisa. Por que enrolar tanto? Qual o seu medo?

Laís,

Eu sou só medo. E vou falar o porquê… Laís, eu te amo. Mas não como o melhor amigo. Eu te amo do jeito que a gente ama alguém que quer passar a vida toda ao lado. Laís, eu te amo de um jeito que não dá mais pra esperar… E falar isso por aqui é mais fácil, é mais certo… E mais seguro.

Pablo,

Eu não sei o que dizer…

Laís,

Não diz nada. Já me arrependi de tudo o que eu disse. Nem devia ter tocado no assunto. Nosso amor é impossível. Não dá. Desculpa.

Pablo,

Por que impossível? Por que esse desespero? Por que desistir tão rápido?

Laís,

Só consigo me sentir culpado por ter te amado toda a vida e ter fingido ser só teu amigo. Sei todos os seus segredos. Todas as suas fraquezas… Laís, perdoa por te amar…

Pablo,

Não há o que perdoar quando o caso é amor. Eu que fechei os olhos para o que havia. Sempre desconfiei dos teus olhos em mim, mas era tudo tão puro entre nós que nunca me ocorreu que podia até dar certo. Você viu em todo esse tempo o quanto eu quebrei a cara, Pablo… Será que o amor não é só você e pronto?

Laís,

Acho que a gente só vai ao saber ao certo se a gente é um pro outro, se a gente guardar esses bilhetes e essas canetas e tentar na vida real ser o que a gente acha que é. Eu te proponho o mundo, Laís… Eu te proponho a vida. Laís, aceita tentar?

Pablo,

Aceito.

Laís,

Saí para o trabalho às 18. Dei o jantar para as crianças e deixei-as assistindo desenhos até você chegar. Já corrigi os deveres de casa e deixei o seu jantar no fogão. É só esquentar no micro-ondas. Obrigado por todos esses anos. Te amo, minha melhor amiga.

Pablo,

Obrigado pelo jantar. Estava delicioso. Te amo como sempre, meu melhor amigo. E se a gente viajar com as crianças esse fim de semLaís?

Laís,

Ah, claro. Vamos sim! Pra esse nosso amor de 20 anos sempre é tempo, sempre é dia e hora. Beijos!