Detentos da Colônia Agrícola de Santa Isabel (CPASI) que participam do projeto Nascente, desenvolvido pela Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará (Susipe), aprendem técnicas de cultivo da pimenta, um mercado que a cada dia vem ganhando mais espaço no Brasil.

De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Pará (Sebrae-PA), na comparação com outras culturas, como os grãos, as hortaliças produzidas em sistemas de campo aberto geram mais lucro a cada hectare cultivado. Por isso, apesar das variações cíclicas e sazonais, a atividade é bastante rentável e atrativa. Em condições normais de mercado, estima-se que as hortaliças gerem entre US$ 2 mil e US$ 20 mil por hectare (campo aberto).

Na CPASI, as técnicas de cultivo são repassadas diariamente aos detentos. “No momento nós temos cinco internos que fazem a manutenção do solo. Eles molham todos os dias, adubam, capinam e uma vez na semana fazem a colheita. Atualmente, estamos colhendo uma média de 30kg por semana”, destacou Charles Pereira, técnico agrícola.

Para o detento Anderson Ferreira de Oliveira, de 29 anos, todos os dias trazem um aprendizado diferente. “Aqui nós temos oportunidade de aprender de tudo, basta ter interesse. Eu, por exemplo, já sei todas as técnicas para fazer o plantio da pimenta e sinto que posso apostar nesse ramo quando sair daqui, pois já vou levar conhecimento suficiente de como tudo funciona”, afirma.

SusipeAtualmente há 684 pés de pimenta doce em início de produção. “A horticultura depende muito da oferta e da procura. Tem semana que a pimenta, por exemplo, é comercializada a R$ 10 e em outra sai a R$ 30, a tela com 10 kg. No verão, o preço chega a R$ 60. Aqui também plantamos o urucum, cujas flores são importantes para a melicultura, outra atividade que também desenvolvemos na Colônia. Usamos o fruto na ornamentação, pintura de tecido e também na culinária, como colorífico. Dos internos que trabalham aqui na plantação de pimenta, quatro já demonstraram interesse em trabalhar com a atividade quando estiverem lá fora. Eles já dominam a técnica de adubação e plantio, sabem que cuidados devem ter para manter a cultura, que fungicida usar, enfim, estão preparados para o mercado”, afirma Charles.

“Eu colho pimentas todos os dias e é a primeira vez que me vejo fazendo algo desse tipo. Nunca tinha tido contato com esse trabalho e acho que pode ser uma alternativa para quando eu sair daqui. Eu tenho uma filha de 9 anos que precisa de mim, é por ela que eu faço esse esforço. Aqui dentro cada dia traz uma nova oportunidade para de mudarmos de vida”, relata o detento Carlos Diogo, de 29 anos.

Olericultura – As hortaliças são culturas exigentes em mão-de-obra, desde a sua semeadura até a comercialização. Por isso, podem gerar um grande número de empregos. Estima-se que cada hectare plantado a atividade gere, em média, entre três e seis empregos diretos e também indiretos. A CPASI abriga 10 canteiros de coentro, seis de chicória e 14 de couve.

“Nós produzimos primeiro as mudas e depois elas vão direto pra horta. Compramos as sementes e os substratos são feitos aqui mesmo, na compostagem. Fazemos as misturas, plantamos e quando atingem o tamanho certo levamos para a horta. Hoje temos couve, alface e abobrinha. Geralmente temos cinco detentos trabalhando na lavoura, mas hoje só estamos com um. Eles são responsáveis por plantar as mudas, fazer a mistura do composto com a semente e também por confeccionar as embalagens em material reciclável, onde elas são acondicionadas. Todos os detentos que trabalham com a gente têm algum tipo de deficiência física, pois a horta exige um esforço menor, mas é uma forma de mostrar que eles também são capazes e que podem, sim, entrar no mercado de trabalho”, explica José Maria.

O detento Antônio Freires, de 53 anos, trabalha há cinco meses no projeto, com a horta. Ele já passou pela fruticultura um tempo atrás e diz que as duas atividades foram igualmente importantes para o seu aprendizado. “Até vir para cá eu não tinha experiência alguma nessa área. Hoje eu posso dizer que conheço a terra, sei quando ela é produtiva, o que plantar, como manejar. Gosto muito disso, é uma terapia. E como eu tenho um terreno no Marajó, quando sair daqui pretendo plantar e ganhar dinheiro com isso pra sustentar minha família”, revelou.

Shirley Lopes, auxiliar agropecuária, acompanha o projeto desde o início e conta que no começo os internos só viam nisso uma uma possibilidade de reduzirem suas penas, mas hoje eles percebem a oportunidade que estão tendo. “Eu oriento os internos sobre como plantar, fazer a semeadura, adubar. Todos eles chegaram sem nenhuma experiência e hoje já falam em ter sua própria horta, para garantir uma fonte de renda e também para uso familiar”, comenta Shirley.

O detento José Maria, de 47 anos, trabalha há dois meses na horta e já tem planos para o futuro. “Eu molho, planto e capino. Tenho um terreno em São Sebastião da Boa Vista, onde é difícil encontrar quem plante cheiro-verde, e já sei que posso garantir uma renda extra com uma horta”, planeja.

Francisco do Lago, de 33 anos, está desde julho nas atividades sa horta e diz que já aprendeu muita coisa. “Eu nunca tinha trabalhado com isso e apesar de ser um ramo que eu não pretendo seguir, é um conhecimento que eu posso usar na alimentação da minha família, pois é até uma forma de garantir uma qualidade de vida melhor, com mais saúde.”

Fruticultura – Na CPASI os detentos também aprendem técnicas de fruticultura. Atualmente, há uma quadra com 220 pés de mamoeiro e outra nova que já está com mais 266 pés da fruta, além do cultivo da acerola, com 230 pés. “Os internos vem pra cá às 8h e fazem todo o manejo do mamão. Mantemos um cronograma pré-estabelecido com o período certo para adubação, pulverização, manejo, capina e, com um ou dois meses, sob a nossa orientação, o interno já está habilitado a utilizar as técnicas agrícolas. Na fruticultura temos 10 internos que ajudam nos trabalhos”, avaliou Mariano Cardoso, técnico agrícola.

Entre noções teóricas e práticas, os detentos aprendem a fazer o preparo do solo (substrato), formação das mudas, seleção das sementes, aplicação de inseticida natural, formação do pomar, demarcação de área, limpeza, abertura de covas e o preparo com adubo orgânico.

Para Mariano Cardoso o projeto é um aprendizado para os detentos. “A maioria dos que vem pra cá são do interior do Estado, então são pessoas que já tem noção de como é trabalhar com a terra. Então eles só tendem a melhorar, a ter uma visão mais empreendedora da atividade. Quando voltarem para as suas cidades de origem, terão mais conhecimento e vão saber como garantir seu sustento”, destaca o técnico.

“Todo dia eu aprendo uma coisa diferente aqui. Hoje eu posso estar regando, amanhã cuidando da adubação e assim por diante. A vida é como uma plantação, que você tem que cuidar para colher bons frutos. Eu vim de Portel e quando eu voltar para minha cidade já sei o que poderei produzir”, diz o detento José Gomes da Silva, de 39 anos

Helder Castro, de 26 anos, está há apenas dois meses no regime semiaberto da Colônia e diz que se surpreendeu. “Eu nunca tinha trabalhado com nada disso e achava que era muito difícil. No começo eu não sabia nem o que fazer e hoje em dia eu já dou conta do recado, porque aqui somos bem orientados, o pessoal nos ajuda muito e aí vai da força de vontade cada um.”
Superintendência do Sistema Penitenciário do Estado do Pará