O principal ingrediente de um dos mais tradicionais pratos da culinária paraense, o pato no tucupi, é também um dos focos da capacitação promovida pelo Projeto Nascente, desenvolvido pela Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará (Susipe), dentro da Colônia Agrícola de Santa Izabel (CAPSI), na Região Metropolitana de Belém. Há 15 anos, toda a criação de patos da unidade é comercializada, especialmente na época do Círio de Nazaré, em outubro, quando o número de vendas da ave triplica.

Glelson Pereira de Souza, 33 anos, um dos internos que ajudam na criação dos patos, garante que o projeto só tem contribuído para seu crescimento pessoal. “O legal é que a gente vai conhecendo todas as etapas da criação, desde que o pato nasce, até quando cresce. Eu já tinha trabalhado com animais, mas nunca com aves, e agora é mais um aprendizado pra minha vida. O projeto de mudança começa dentro da gente. Aqui temos toda a oportunidade de adquirir conhecimento e de colocar isso em prática. Só não dá continuidade quem não quiser. Nós cometemos um erro, mas todo mundo merece uma segunda chance, e com o trabalho acho que podemos mostrar isso”, defende o interno.

“Eu cuido das aves o dia todo. Troco água, dou ração e lavo o local onde elas ficam. Começamos às oito da manhã, paramos para o almoço e à tarde voltamos ao trabalho. Quando nascem os filhotes nós que cuidamos. Temos até uma ‘maternidade’ pra eles. É como se fosse um filho, e temos todo o cuidado para que eles não morram”, diz Glelson de Souza.

Responsabilidade – Para Antônio Pereira da Silva, coordenador de campo da CPASI, o contato com os animais permite que os internos se tornem pessoas melhores, mais sensíveis e responsáveis. “É um projeto de fundamental importância. A gente observa nesses detentos quando eles vêm pra cá que não têm a noção do que é cuidar de um animal. Mas eles aprendem rápido, e acabam até se apegando a eles. É uma vida, e eles são responsáveis por ela. Isso os torna pessoas com mais sensibilidade, capazes de perceber que importância isso tem, que eles podem cuidar de outro ser”, ressalta o coordenador.

O pico de venda dos patos é na época do Círio de Nazaré. Este ano, foram criados mais de 500 animais, a maioria comercializada em outubro. Desse total, 38 estão em fase inicial e 130 na fase de crescimento. No ano passado, foram vendidos mais de 250 aves, e toda a renda obtida foi revertida para as atividades do Projeto Nascente. O preço da fêmea ficou em R$ 35,00 e do macho, R$ 45,00.

Aprendizado – “Outro ponto importante a destacar é que quando os internos chegam para trabalhar aqui não têm nenhum conhecimento do que é produzir, e de que é possível ter uma boa renda com a criação desses animais. Aqui, nós ensinamos pra eles todas as etapas e como fazer para ter sucesso na comercialização. Hoje, dez detentos trabalham aqui, divididos em várias funções, que são limpeza, coleta de ovos, troca de água e de ração, entre outras atividades”, acrescenta o coordenador.

Jânio Almeida de Lima, 30 anos, já pensa em montar um negócio após cumprir a pena. “Eu vim parar aqui sem saber como era cuidar de um desses animais, e achava que nem tinha jeito pra fazer isso. Mas com o passar do tempo vamos aprendendo, e tendo a visão de que isso é um bom investimento pra gente quando sair daqui. Trabalhando no projeto também estamos juntando um dinheirinho, e com ele podemos montar um pequeno negócio e seguir em frente. Sempre que sinto dificuldade vou atrás de informação, procuro aprender, e os técnicos estão dispostos a nos ajudar. Então, a gente só tem a crescer”, destaca Jânio de Lima.

Meta e produção – Ampliar a criação de frangos é uma das metas do Projeto Nascente. A avicultura foi introduzida na Colônia Agrícola há quatro meses, após a realização de um curso sobre essa prática, com 78 aves da raça “pitainha”. Com a alimentação alternativa os animais ganharam peso muito rápido, e 27 já foram vendidos – a R$ 25,00 cada. Hoje, a criação conta com 51 aves, mas a coordenação do projeto espera produzir 200 pitainhas por mês. A criação mobiliza cinco detentos, responsáveis pela alimentação e lavagem dos bebedouros.

Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), nos últimos 40 anos a produção de carne de frango foi a que mais cresceu, no Brasil e em outros países, na avaliação nesse parâmetro. A produção brasileira totalizou no ano passado 13,146 milhões de toneladas, volume 3,58% superior ao registrado em 2014.

Com este resultado, o Brasil se consolidou como o segundo maior produtor mundial de carne de frango, superando a China – que produziu no ano passado 13,025 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA – sigla em inglês).

Experiências – O detento Cleison Miranda, 32 anos, se surpreendeu com o aprendizado. “Atualmente, eu estou ajudando na construção do local onde as aves irão ficar. Agradeço muito por esse trabalho, porque foi uma chance que me foi dada. Eu nunca tinha trabalhado com animais, mas sempre mostrei muita dedicação em tudo o que faço aqui, e acho que por isso me deram essa oportunidade. Ajudo a montar a casinha delas porque já tinha experiência na construção civil, então me ofereci para fazer as baias. Sei que esse conhecimento adquirido aqui eu vou levar pra vida toda”, afirma.

O projeto oferece conhecimento não apenas na fase de criação, mas também na comercialização e sobre os tipos de carne. Dessa forma, os presos são capacitados para trabalhar em granja. E, segundo os técnicos responsáveis pela criação, já há interesse de um empresário do ramo em contratar um dos internos.

Renato dos Santos, 26 anos, trabalha há um mês na criação de frangos. “Eu dou comida e lavo o bebedouro, para sempre terem água limpa. O trabalho começa por volta de 8h e vai até as 15h. Eu mesmo fui à direção da casa penal e pedi uma oportunidade aqui. Como já tinha trabalhado com aves, pra mim foi mais fácil. Minha mãe tinha uma criação e eu costumava ajudar. Por isso achei que podia ser de alguma serventia para o projeto. Quando eu sair daqui vou ajudar minha família. Agora eu já sei como fazer isso, por aqui eu aprendo de tudo um pouco”, conta o detento.