Kleysykennyson Carneiro

Ela nunca foi Fabrício e ninguém entendeu. Chamaram ela de Fabrício e aceitar foi tão difícil quanta a infância que levou. Tente você ser chamado pelo que não é, e a vida se torna o passar e não o viver. O caso é que ela cresceu e era Fabrício ainda mesmo sem querer e tomou porrada na escola, na esquina e em casa pra virar macho, mas as pessoas são o que elas são e não o que as pessoas querem. Foi pra igreja e a chamaram de demônio, participou de quebras de maldição, fingiu a histeria de uma possessão só pra se livrar das fervorosas palavras de expulsão proferidas pelo padre, o pastor e o rabino. Depois foi para o psicólogo para tratar dos surtos psicóticos diagnosticados pelo pai, que era engenheiro; o médico constatou que ela era saudável e absolutamente consciente de todos os seus atos e vontades. Ele foi taxado de incompetente. E ela passou a infância toda vagando por consultórios, igrejas e pancadas.

Aos 14, desistiram do que não podia ser. O pai era raivoso e omisso. A mãe era chorosa e desgostosa com a vida. Ela tomou hormônios e os seios cresceram e o corpo mudou. O cabelo cresceu e as porradas também. Um dia, quando beijava um namoradinho, um grupo que se dizia cristão, mas com certeza não era, espancou os dois. Ele foi morto no local e ela ficou 2 meses em coma no hospital. Ninguém a visitou.

Aos 17, já mulher e Milena, o pai a expulsou de casa e ela nem pode pegar as roupas, mas salvou um kit de maquiagem importado. Se mudou para a casa de uma amiga. Procurou emprego, mas não teve chances. O empresariado parecia não compreender a gravidade da situação: se não tivesse emprego, ela morreria de fome, mas todos diziam que ela não tinha perfil para as vagas ofertadas. Sua amiga falou da única forma de não morrer de fome. E ela o fez lá na beira do cais.

Se prostituir era bem mais difícil do que cria quando era inocente. Vender o corpo não deixava marcas na pele, mas a alma estava mutilada.

A menina espiava o céu cheio de estrelas e ela queria ser uma delas. Milena, menina, sonhava com o cinema, com Cannes, com o Oscar, com a calçada da fama e roupa de cama e a vida que ela sempre quis. Viajar pra Paris, casar com um príncipe e ter filhos monarcas… Sonhar é um direito! Mas o carro parava e o sonho era interrompido, pois na beira do cais ninguém se importa muito com os sonhos de ninguém.

Milena entrou no carro e fez o que tinha de fazer. Estava impura. Era só cachaça, cigarro e uma consciência em frangalhos. Pra se anestesiar da vida, fumou uma, duas, mil pedras. E o vício ficou. E quantos carros passaram na beira do cais ela já nem sabia, mas entrou em todos e voltou ao mesmo lugar. Enxaguante bocal na bolsa, camisinha e bala de hortelã também. O trabalho tomou o piloto automático e ela nem percebeu. E se afundou. E se perdeu. Apanhou de um cliente que queria o dinheiro de volta; de faca. Tentou cortas o pulsos, mas a amiga a salvou.

E imaginou que as luzes do hospital eram as de um estúdio em Hollywood. E quis viver para tentar o sonho de ser feliz. E viveu.

Contava as estrelas, as moedas, as datas, as vidas. Milena, mulata, sonhava, pois sonhar era bom. Guardava o vômito para depois, não dizia que não gostava e até fingia gozar. Usava os melhores sorrisos para o mundo que a esperava e que a chicoteava.

Milena era infeliz. Passava pela vida e não sabia mais dos seus sonhos.

Um dia um carro parou. De lá, a mãe e o pai saíram. Estavam mais velhos, mais sérios e de lágrimas nos olhos.

Ela segurou o choro. Não daria o braço a torcer. Se a chamassem de Fabrício, cuspiria neles. O momento foi pesado e o clima, dos mais tensos. Os olhos de sua mãe pousaram sobre as cicatrizes nos seus pulsos. Os do seu pai, lamentaram a sua magreza e o seu descuido.

-Milena, minha filha. Vamos para casa? – ele falou.

E dez anos longos depois, eles se abraçaram e choraram o amor guardado a vida toda. Milena venceu o Fabrício. E entrou no carro pela última vez e se importou com o sonhar e fez planos para o viver. Pois ainda havia tantas estrelas no céu e ela seria uma delas, de certo.

O tempo era o maior bem que lhe sobrou e ela foi embora e ali nunca mais voltou, pois na beira do cais ninguém se importa com o que ela sonhou.