Kleysykennyson Carneiro

Já pensou se a gente se conhecesse hoje, nessa adolescência rebelde, nessa noite fria e chuvosa? Já pensou se a gente ignorasse a chuva e se sentasse nesse banco de praça? E se a gente desse as mãos? E se a gente se beijasse agora mesmo? Se você mordesse o meu lábio, eu corresponderia e morderia o seu também.
Já pensou se a gente emendasse daqui até o próximo motel e entrelaçasse os nossos corpos naquela cama quentinha? Com esse frio, é tentador. Já pensou se a gente chegasse ao clímax juntos? Já pensou se mesmo depois do fim, a gente quisesse continuar abraçadinho? Já pensou?
E se a gente engatasse o namoro já amanhã? Sem esperar pra depois. A vida não é agora? Ah, a gente tem que ficar junto.
E se a gente não desse certo? E se a gente corresse os riscos que tem de correr? E se a gente simplesmente arriscasse?
E se a gente se casasse depois de amanhã? Se a gente se entende tão bem não tem porque a gente morar mais separado. E se a gente nem fosse ao altar? Você traz suas coisas e a gente se agasalha aqui em casa. Pode vir! A vida é agora! Lembra?
E se a gente distribuísse as tarefas de casa por igual? E se a gente contratasse uma doméstica? E se a gente não fizesse nada e deixasse só o lixo acumular por aí?
E se a gente largasse os compromissos sociais e vivesse binariamente um para o outro?
E se a gente vasculhasse o celular um do outro a cada distração na busca por infidelidades?
E se a gente organizasse essa casa?
E se a gente parasse de brigar um pouco?
E se você deixasse os seus adultérios um pouco de lado?
E se a gente se perdoasse?
E se a gente, pra comemorar, tivesse um filho?
E se esse filho se chamasse Roberto?
E se a gente aproveitasse que o Roberto já tem 3 anos e tivesse uma filha?
E se a gente chamasse ela de Manuela?
E se a gente a apelidasse de Manu?
E se o tempo passasse mais devagar? Sim, pois as crianças crescem rápido. A gente nem sabe o que acontece com toda a inocência.
E se a gente ignorasse a camisinha que você achou nas coisas do Roberto?
E se a gente fosse na casa da menina que a Manu tá namorando pra ver qual é a dela?
E se a gente parasse pra pensar um pouco e rever em que ponto da história a gente se afastou tanto?
E se a gente parasse de trair um ao outro com colegas de trabalho?
E se a gente tentasse de novo?
E se a gente tirasse férias?
E se a gente continuasse amigos mesmo depois da separação?
E se formos todos juntos à formatura do Roberto?
E à formatura da Manu?
E se a gente se reunisse domingo aqui em casa com todos os netos?
Prometo fazer feijoada, você vem?
E se a gente se encontrasse na cozinha por acaso?
E se a chama desses trintas anos se aquecer de novo?
E se a gente descobrir que a única boca que serve pra minha é a tua, e a única que serve pra tua é a minha?
E se a gente reatasse?
E se a gente prometesse nunca mais ir a lugar nenhum sem o outro?
E se a gente, já velhinhos, se sentasse na frente de casa e contasse histórias de toda uma vida para os netos, bisnetos e agregados?
E se a gente falasse da chuva, dos beijos, do motel?
E se a gente contasse essa história de amor?
Esse amor que não morre jamais… Nessas mãos entrelaçados, o tempo que passou, a chuva que aqueceu, a canção do Roberto que ficou…
E se a gente fosse só amor. Já pensou?