Kleysykennyson Carneiro

Não, nem precisa atender. Liguei arriscando, desesperado e pronto para ser completamente ignorado. Eu queria mesmo só ouvir a caixa postal com a tua voz pedindo pra deixar o recado. Bom, ainda está aí? Eu ainda estou aqui. Mas a hora que você quiser desligar eu vou entender. O que eu fiz não tem lá tanto perdão, não é mesmo? O quê? Minha voz não te dá náuseas? Como pode? Ela daria em mim, se eu fosse você. Na verdade, ela tem me dado náuseas, mas como eu não tenho outra voz, só posso usar essa mesmo. Eu deveria aproveitar a sua presença do outro lado da linha, ainda que só por respiração, para dizer que eu sinto muito e o que eu mais queria era o seu perdão, mas não… eu sei que há coisas não se perdoam. Não por orgulho, não, não! É mais por uma questão de princípios mesmo. É, esse plano da minha operadora é incrível! Está me permitindo falar um pouco mais para você… Eu devia lhe falar que eu queria ver as crianças mais vezes, sei que elas sentem a minha falta. Larguei o cigarro, tá? Lembra que você vivia brigando por causa das cinzas que eu deixava em todos os lugares da casa? É, decidi parar. Já são 12 horas limpo e já me sinto melhor. A abstinência às vezes vem, mas ela é quase nada comparada à abstinência de você. A gente, de repente, foi feito um pro outro mesmo e só precisa se entender. A vida não é tão difícil assim. Acho que você, por ouvir tudo isso, vai acabar me perdoando… Então eu devo dizer que prometo mudar em tudo, excetos nas coisas que você gosta em mim. Vou largar a cerveja! Se eu consegui me livrar do tabaco, a cevada vai ser moleza! Vou te ajudar mais com as crianças, eu prometo. Nesse tempo longe de vocês, descobri que os amo tanto e sei que fui relapso com a criação deles. Vou largar os amigos ruins e cultivar apenas o que for bom pra você, eu prometo! Meu Deus, eu nunca admirei tanto a tua respiração; eu nunca quis desesperadamente sentir esse vento quente que vem dos teus lábios… Ah, agora eu quero. Esquece o que eu disse no começo… Acho que você devia me perdoar. Li aqui no nosso mapa astral que a gente passaria por turbulências, mas que o amor supera todas as coisas. Putz! Esqueci a tua religião! E eu aqui falando em mapa astral, cacete! Perdão de novo! Tanto pelo mapa astral, quando pelo “cacete”. Eu sei que você não gosta de palavrão. O relógio já marca muitos minutos de ligação e eu não tenho bem certeza se disse alguma coisa. Bom, eu menti… Estou embriagado e fumando um cigarro nesse minuto exato, mas as cinzas estão no cinzeiro, eu juro! Bom, isso é mentira também; elas estão em cima da mesa. Mas eu prometo ser um homem novo quando chegar em casa, é só você me deixar entrar e ficar pra sempre. Sabe o quanto custa tentar? Custa nadinha! É só a gente querer! E eu quero; isso já é metade do caminho. É… Bom, eu nem sei mais o que tentar falar. Eu só queria voltar pra casa e refazer cada traço, cada bordado do nosso amor. Reviver cada dia bom, cada viagem boa… Meu Deus, um suspiro! Foi o que eu ouvi? Um suspiro mesmo? Ah, tomara que sim. Isso foi um bocejo? Nossa, já é bem tarde… Eu queria ouvir a tua voz, mas acho que não vai dar; o teu suspiro, no entanto, me valeu o dia. Bom, o que eu posso dizer mais? Ah… O tempo é um mal sem pressa longe de você. É um câncer que destrói cada respiro meu, uma morte lenta e náufraga e trôpega. Desamor mata, meu amor, sabia? Ah… Por falar em amor, eu lembrei qual era o recado que eu queria deixar na caixa postal… Mas é bom que você ficou pra ouvir, vai fazer mais sentido… E amanhã, se quiser me procurar, vai me achar no mesmo canto sem você. Eu não mudei nada, mas prometo mudar tudo. E a verdade é que eu não vou a lugar nenhum sem você. A verdade é que eu só liguei pra dizer que te amo. E ainda bem que você me atendeu. Pois eu te amo e falei bem mais do que eu planejei. Agora, eu vou desligar o telefone e vou dormir em paz com o teu suspiro. Mas só por hoje, tá?

Amanhã já é dia de nós dois. Às 10, depois que eu acordar, é a hora de você voltar pra mim. É, eu sei, tenho esse defeito de só querer acordar tarde. Mas eu te amo e prometo também isso mudar.

Amanhã. Às 10. A gente volta.

Por: Kleysykennyson Carneiro