Ministro de Bolsonaro anuncia fim do simulador de trânsito no Brasil

Para quem achava que a novela sobre o uso de simuladores no processo de formação de condutores tinha acabado, um novo capítulo, essa semana, retomou as discussões sobre o tema.  O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, agora responsável pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran), afirmou que pretende acabar com a exigência do simulador em autoescolas.

A declaração, que pegou de surpresa os Centros de Formação de Condutores, foi dada durante a Convenção Nacional da Confederação dos Transportadores Autônomos. ”A ideia é reduzir a burocracia e os custos para aqueles que usam a CNH para trabalhar, como os motoristas, além da população em geral”, disse Freitas.

O ministro foi incisivo em sua opinião sobre a necessidade do uso de simuladores no processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação.

“Vamos acabar com esse troço. Mas vão dizer que é importante… coisa nenhuma. Isso é para vender hardware e software, só para aumentar custo. É lobby, é máfia. Então, vamos acabar”, afirmou.

J. Pedro Corrêa que é fundador do Programa Volvo de Segurança no Trânsito e atua como consultor, especialista em programas de segurança no trânsito e em comunicação empresarial, diz que com esta truculência, não parece um bom começo. “Quando um Ministro de Governo diz que ´vamos acabar com esse troço´, certamente não parece ser o tipo de autoridade que gostaríamos de ver gerenciando um setor importante da vida brasileira que registra cerca de 40 mil mortes, 500 mil feridos, mais de 40 bilhões de danos materiais ao País. Este “troço”, se bem usado, pode ajudar a diminuir estas perdas e isto sem envolver máfias”, avalia J.Pedro.

O especialista explica ainda que não está defendendo o simulador nem os argumentos de vendas utilizados para sua implantação no Brasil, mas que é preciso reconhecer que bons equipamentos, bem projetados para a realidade nacional, e utilizados dentro de conjunto de medidas bem alinhadas, devem ajudar a melhorar o trânsito.

“Usado isoladamente, não será, certamente, a salvação apregoada. Quanto à declaração do Ministro, lamento que já tenha “virado o balde” no primeiro momento ao chamar de “troço” e “acabar com a Máfia”. Um pouco mais de bom senso, um comentário mais moderado, ainda que firme, fariam melhor ao setor que espera, enfim, ter chegado o seu momento de redenção”, enfatiza.

Para David Duarte Lima, doutor em Segurança de Trânsito e presidente do Instituto de Segurança no Trânsito, o simulador foi implantado no processo de formação dos condutores com finalidade exclusivamente comercial. “Não há qualquer estudo com representatividade sobre o tema. Os estudos existentes são frágeis, com amostras pequenas, sem validade para o Brasil. São experiências de “quase-laboratório”. Já conversei sobre o tema com mais de uma dezena de especialistas em diversos países. Alguns deles têm livros dedicados à formação de condutores. Há unanimidade: o simulador é absolutamente dispensável e sua contribuição na formação de condutores é desprezível. Conheço o processo de habilitação no Brasil. Há falhas, porém o simulador contribui apenas para complicar. O impacto sobre a segurança de trânsito é nula”, afirma.

De acordo com Lima, a melhora no processo de formação de condutores pode seguir outro caminho, com a valorização do instrutor de trânsito.

“O que precisamos no Brasil é de um método de ensino de “prática de direção”. Para reduzir em cerca de 80% a violência no trânsito, entre outras ações, a Espanha reformulou completamente a formação dos instrutores. A atividade foi valorizada, os instrutores mais bem formados, a fiscalização implementada de forma eficaz. Sem simuladores”.

O que acham os instrutores?

A opinião de quem trabalha, na prática, com os simuladores, não é muito diferente do que dizem os especialistas. Alguns instrutores ouvidos pelo Portal do Trânsito relatam que no dia a dia, as dificuldades do uso do simulador impedem que a aula seja eficaz e produtiva. Porém, não há um consenso.

Adriane Toledo, instrutora teórica e prática, por exemplo, é a favor do simulador para candidatos à primeira habilitação. “Na minha opinião, as condições adversas com os seus fatores e combinações contribuem para aumentar as situações de risco no trânsito. E nesse quesito o simulador é uma grande vantagem, pois os alunos aprendem se comportar nessas situações de perigo”, esclarece.

A instrutora acredita que seria um retrocesso retirar o simulador da formação de condutores. “O aluno perderia qualidade na evolução moderna no ensino que o simulador trouxe e isso não diminui o custo do processo, pois as aulas continuam sendo obrigatórias, só que no veículo isso custa ainda mais caro que no simulador com maiores riscos nas aulas iniciais. Enfim, o aluno perde todos os benefícios de ter a experiência sem riscos com o veículo antes de ir para aula prática em via pública, para mim é um retrocesso no ensino e mais um desrespeito arbitrário e inconsequente com os CFC’S que investiram nos simuladores”, explica.

Já na opinião de Anna Maria Garcia Prediger, que é instrutora de trânsito, o equipamento apresenta problemas. “O simulador é demasiadamente sensível, você encosta nos pedais e ele freia ou acelera demais, sem contar que vejo que os alunos chegam com vícios por erro do hardware, por exemplo, para parar, frear o carro, tem que pisar no freio e embreagem, o que não pode no exame, pois tem que primeiro frear, e para não deixar o carro morrer, pisar na embreagem antes de parar. A noção de espaço nele é horrível e muito diferente de quando se está ao volante. Enfim, creio que cinco aulas no carro, a mais, sejam muito mais produtivas, do que as aulas no simulador, que só burocratizam e tornam mais caras as aulas, sem eficácia alguma comprovada, nem nas aulas, nem nos índices de acidentes”, acrescenta.

Eduardo Cadore, psicólogo e Diretor de Ensino em CFC, acredita que o simulador não oferece nada que uma boa aula prática já não o faz. “O equipamento pode contribuir para a formação apenas na medida em que permite a simulação de condições de trânsito que o candidato não vivenciará nas aulas práticas. Não me parece que tenhamos reduzido a acidentalidade nem facilitado o processo de habilitação desde sua inserção”.
Cadore diz ainda que não vê o simulador como uma etapa indispensável, mas acredita que sua retirada apenas pelo fator de redução de custos também não parece ser a opção mais inteligente. “É preciso levantar dados, ouvir instrutores, condutores que passaram por esse processo, para que se possa ter uma melhor dimensão se essas aulas precisam realmente permanecer ou se sua retirada é o caminho. Retirar por retirar, assim como manter por manter, não é inteligente se não levar em consideração, especialmente, a segurança no trânsito, se é que a simulação como é realizada melhora essa condição”, finaliza.

Para Celso Mariano, especialista em trânsito e diretor do Portal, usar simuladores na formação de condutores, é um luxo exagerado para um país que não cumpre coisas básicas como apresentar aos candidatos a CNH questões bem elaboradas na prova de primeira habilitação, o que contribuiria de forma contundente para a qualidade do processo. Ele acredita que o uso de simuladores na primeira habilitação pode sim contribuir, mas não deve ser esperado nenhum milagre, especialmente porque os simuladores brasileiros adotaram um padrão de simulação muito inferior ao que a tecnologia atual poderia oferecer. E aponta um outro ponto crítico, na fase em que está proposta a utilização do equipamento:

“O aluno está tendo contato com o simulador antes da experiência real, com um veículo de verdade, e isso é um equívoco didático e, no mínimo, um desperdício. O correto seria primeiro o mundo real e depois o simulado. O esforço para aprender a controlar aquele conjunto de volante, pedais e câmbio para comandar um veículo virtual em um ambiente simulado, é do mesmo tamanho do que aprender em um veículo de verdade. Na ordem utilizada, há um enorme esforço para aprender a usar o simulador e depois, outro, para aprender a manejar o veículo de verdade. O contrário seria seria muito menos problemático e, eventuais dificuldades intransponíveis que algum aluno apresentasse em utilizar o simulador, não faria falta, já que ele será condutor de um veículo real do mundo real, não um piloto de bólidos virtuais.”

Segundo Mariano, um simulador seria muito mais útil no final do processo, quando o aluno já domina o carro, mas não tem nenhuma experiência em dirigir sozinho, enfrentar tráfego pesado ou viagens em estradas e rodovias. “Poder viver a experiência de conduzir em condições adversas, ainda que num ambiente virtual, desde que em um bom simulador, seria precioso. Este aprendizado final acaba acontecendo, temerosamente, longe das autoescolas, nas ruas. Seria bem melhor para todos que acontecesse em um simulador”, finaliza.

Histórico

O uso do simulador deveria ter se tornado obrigatório em 2013, após as autoescolas terem tido um prazo para adquirir ou alugar o equipamento. Em fevereiro de 2014, donos de autoescolas protestaram nas proximidades do Congresso Nacional contra o uso de simuladores. Em junho de 2014, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) decidiu que o uso do aparelho na formação de novos motoristas seria opcional. No entanto, na data de 15 de julho de 2015, a Resolução 543 tornou  novamente obrigatória a utilização de simuladores de direção para a categoria B.

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